quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Uma história de amor.

A História de um Vaso

 



Primeira parte




Eu estava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré, junto à tenda, quando vi chegar apressadamente um dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me frágil, sem nenhuma possibilidade de me sair vitorioso.
Sempre fui um homem pacífico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde a infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos. Em lugar de escudos, carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca para matarem sua sede e refrigerarem as ovelhas cansadas. Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho. Em lugar de ressonantes trombetas eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curral.
Imaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz d’Aquele que sempre me guia, soou aos meus ouvidos, dizendo:
- Abraão, Abraão! Não   menosprezes os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar grande livramento.
O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de realizar-se.
 O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiramse ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastoresOrdenei que eles esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija.  Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeite dos jarros. Depois de transmitir todas as ordens aos pastores, o Eterno falou-me:
- Toma agora o teu vaso, o teu único vaso, e traga-mo a mim para que eu te mostre o que deves fazer”.
Tínhamos na tenda três jarros adquiridos na cidade de Harã; Nos dois menores, guardávamos o azeite para as lâmpadas, e no terceiro que era o maior e mais bonito, guardávamos pérolas e pedras preciosas, jóias reunidas por Sara ao longo de nossas peregrinações. Julgando ser o terceiro jarro o escolhido, estendi as mãos para toma-lo, mas o Senhor  impediu-me de faze-lo, afirmando que, ainda que ele fosse portado de riquezas que seriam essenciais para o livramento,
Ele escolhera um jarro especial aquele que fora rejeitado e esquecido.
Lembrei-me do grande jarro de barro que nos fora presenteado por um humilde oleiro, quando estávamos próximos de Canaã. Nós o pusemos inicialmente ao lado dos três, e nele colocamos os primeiros frutos colhidos na terra prometida. Não havendo, contudo, nenhuma beleza nele, Sara o rejeitou, lançando-o para fora da tenda. Sete anos depois, o oleiro visitou-nos e, ao encontrá-lo abandonado junto à tenda, mostrou-nos uma maneira em que ele poderia ser útil.

Amarrando-o firmemente com uma corda de linho, lançou-o ao fundo do poço; Por meio dele, os pastores passaram a tirar água para os rebanhos. 

Seguindo as orientações do Eterno, dirigi-me ao poço, fazendo emergir de suas profundezas o jarro esquecido; Ao vê-lo repleto de água, lembrei-me do momento em que ele fora lançado ali, vazio e seco.
Depois de esvaziá-lo, o Eterno ordenou-me transferir para ele o azeite dos dois jarros menores bem como as jóias do terceiro. Como sobrara muito espaço vazio no jarro, o Eterno ordenou completá-lo com azeite novo de oliva.
Ao concluir essa tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, devendo ficar uma de suas pontas mergulhada no azeite e a outra suspensa sobre o vaso.
Depois destas coisas, o Eterno ordenou-me a acender o pavio com o fogo do altar.

Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha  saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de longe.


Com o vaso nos ombros, comecei uma longa caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia, passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, aconselhando-me a retornar para a tenda, abandonando aquele jarro que seria capaz de destruir a boa reputação que eu havia conquistado entre eles.
Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas, agarrando-me a ele, impedi que o tirassem de mim.Envergonhados diante de tudo aquilo, muitos pastores começaram a afastar-se: alguns retornaram para suas tendas, enquanto outros, uniram-se àqueles que riam de meu comportamento estranho. Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me.
  

TEM CONTINUÇAO POR CAPITULOS.

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