Primeira parte
Eu estava descansando sob a sombra do Carvalho de
Mambré, junto à tenda, quando vi chegar apressadamente um dos servos de meu
sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia:
houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo
quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de
seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo
em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me frágil, sem nenhuma
possibilidade de me sair vitorioso.
Sempre fui um homem pacífico e detesto aqueles que
derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e
lanças, pois desde a infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas,
eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos. Em lugar de escudos,
carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca para matarem sua
sede e refrigerarem as ovelhas cansadas. Em lugar de vinho para se embebedarem,
carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com
os quais untam as feridas do rebanho. Em lugar de ressonantes trombetas eles
sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curral.
Imaginando como seria um combate
entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a
rir. Enquanto gargalhava, a voz d’Aquele que sempre me guia, soou aos meus
ouvidos, dizendo:
- Abraão, Abraão! Não menosprezes os instrumentos dos pastores, pois
santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar grande livramento.
O Eterno passou a dar-me ordens,
fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de
realizar-se.
O primeiro
passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos,
dirigiramse ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao
todo 600 pastores. Ordenei
que eles esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija. Depois de cumprirem esta ordem, pedi que
tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeite dos jarros.
Depois de transmitir todas as ordens aos pastores, o Eterno falou-me:
- Toma agora o teu vaso, o teu único vaso, e
traga-mo a mim para que eu te mostre o que deves fazer”.
Tínhamos na tenda três jarros adquiridos na cidade
de Harã; Nos dois menores, guardávamos o azeite para as lâmpadas, e no terceiro
que era o maior e mais bonito, guardávamos pérolas e pedras preciosas, jóias
reunidas por Sara ao longo de nossas peregrinações. Julgando ser o terceiro
jarro o escolhido, estendi as mãos para toma-lo, mas o Senhor impediu-me de faze-lo, afirmando que, ainda
que ele fosse portado de riquezas que seriam essenciais para o livramento,
Ele escolhera um jarro especial – aquele
que fora rejeitado e esquecido.
Lembrei-me do grande jarro de barro que nos fora
presenteado por um humilde oleiro, quando estávamos próximos de Canaã. Nós o
pusemos inicialmente ao lado dos três, e nele colocamos os primeiros frutos
colhidos na terra prometida.
Não havendo, contudo, nenhuma
beleza nele, Sara o rejeitou, lançando-o para fora da tenda. Sete anos
depois, o oleiro visitou-nos e, ao encontrá-lo abandonado junto à tenda,
mostrou-nos uma maneira em que ele poderia ser útil.
Amarrando-o firmemente com uma corda de linho, lançou-o ao fundo do poço; Por
meio dele, os pastores passaram a tirar água para os rebanhos.
Seguindo as orientações do Eterno, dirigi-me ao
poço, fazendo emergir de suas profundezas o jarro esquecido; Ao vê-lo repleto
de água, lembrei-me do momento em que ele fora lançado ali, vazio e seco.
Depois de esvaziá-lo, o Eterno ordenou-me
transferir para ele o azeite dos dois jarros menores bem como as jóias do
terceiro. Como sobrara muito espaço vazio no jarro, o Eterno ordenou
completá-lo com azeite novo de oliva.
Ao concluir essa tarefa, o Senhor mandou-me fazer
um longo pavio de lã, devendo ficar uma de suas pontas mergulhada no azeite e a
outra suspensa sobre o vaso.
Depois destas coisas, o Eterno
ordenou-me a acender o pavio com o fogo do altar.
Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia
sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se
alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de
longe.
Com o vaso nos ombros, comecei uma longa caminhada
rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a
surgir escarnecedores que, ao verem-me com
aquele vaso incandescente em pleno dia, passaram a dizer
que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro,
aconselhando-me a retornar para a tenda, abandonando aquele jarro que seria capaz de destruir a boa reputação que eu
havia conquistado entre eles.
Quando eu lhes falei sobre
os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco.
Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas, agarrando-me a ele, impedi que o
tirassem de mim.Envergonhados diante de tudo aquilo, muitos pastores começaram
a afastar-se: alguns retornaram para suas tendas, enquanto outros, uniram-se
àqueles que riam de meu comportamento estranho. Sentindo-me
sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me.
TEM CONTINUÇAO POR CAPITULOS.